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A continuação da conversa com Stephen Little...

...explorou a nossa experiência de sermos imigrantes; as descobertas e os ajustes que fazemos quando ficamos imersos em uma outra cultura.

O Stephen comentou que na sua experiência, observou que socializar no Brasil acontece de um jeito muito diferente da dinâmica na Irlanda e na Europa em geral. Ele notou que no Brasil as pessoas são mais abertas desde o início, porém tendem a não se aprofundar nas relações, ficando mais confortáveis nos contatos sociais de diversão. Isso pode se manifestar em oportunidades de interações super agradáveis em festas, comemorações, rodas de samba no bar.


Eu compartilhei com o Stephen que nunca tinha participado de um “quiz” (uma competição para responder perguntas de conhecimentos gerais) enquanto estava no Brasil, mas aqui em Londres é muito comum os pubs terem o “Quiz Night” onde você vai ver várias mesas com grupos de pessoas com papel e caneta respondendo as perguntas que o “mestre do quiz” (inventei esse nome agora, pq não sei como eles chamam o cara que faz as peruntas…rsrs) faz. Algumas mesas tem grupos de amigos e pode acontecer de alguém aparecer e precisar de um grupo, então se junta a uma mesa.

Os ingleses encontraram um jeito (alguns jeitos) de facilitar as interações entre estranhos, com jogos e quizzes. Porque eles identificam que existe um desconforto inicial na interação. Ao meu ver, o brasileiro não tem essa característica que muitos ingleses demonstram de serem muito “self-conscious” (termo que em inglês está relacionado a constrangimento e não a auto-consciência). Nós tendemos a ser mais relaxados nessas interações buscando algo em comum logo de cara. O álcool é um recurso em ambas as culturas também.


O que Stephen e eu percebemos na nossa conversa é que de início os brasileiros são muito cordiais e acolhedores, enquanto os europeus tendem a ser cordiais, mas distantes.


Os brasileiros abrem espaço e confiam na pessoa de início, no entanto tendem a ter dificuldades em se aprofundar nas relações e lidar com conflitos e diferenças. Os europeus não abrem espaço fácil, demoram muito pra confiar na pessoa, porém uma vez que confiam apresentam maior disponibilidade pra aprofundar a relação e lidar com as dificuldades que podem surgir. É lógico que estamos generalizando aqui, mas se você já passou por experiências em culturas diferentes, o que você notou em relação a isso?



Um outro tema que a gente explorou foi sobre sentimentos e como lidamos com nossos sentimentos mais desconfortáveis. Stephen compartilhou sobre sentir tristeza ao se conectar consigo mesmo de forma mais profunda, especialmente nesses tempos de pandemia, e sobre como vivemos um tempo em que a tristeza não é um sentimento aceitável; temos que ser felizes, estar contentes e se sentimos tristeza, isso é um problema. Foi muito bom falar desse aspecto da nossa humanidade; somos seres vulneráveis que sentimos raiva, medo, tristeza e tantos outros sentimentos que muitas vezes revelam nossas fragilidades em expressões que nos envergonham.


Stephen disse:


“Viver com outras pessoas é algo muito complexo e difícil. Somos testados a todo o tempo. E não é que só sinto tristeza, e certamente sinto a vida como algo milagroso, mas é quase como se eu fosse aprendendo a viver com uma triteza de fundo que revela que nasci sozinho e vou morrer sozinho e minhas decisões são minhas somente e nada é permanente. Se aprendo a viver com essa tristeza de fundo, parece que eu vivo uma vida mais completa e parece que consigo me sintonizar com as pessoas e me adaptar à situações desafiadoras mais prontamente. Esse processo me capacita melhor a entrar em sintonia com pessoas que estão enfrentando dificuldades e parece que também vai me curando de minha própria arrogância e busca desesperada por um estado mais eufórico quando as coisas não estão tão bem.”





A experiência dos sentimentos pode acontecer em camadas e Stephen disse notar que muitas vezes por tras de sua raiva está um sentimento de tristeza:


“Eu esperava algo que não aconteceu, e noto que quando digo que estou triste em vez de dizer que estou com raiva, quando isso é genuino, as pessoas demonstram que me compreendem muito melhor; se falo do lugar da minha raiva, pode trazer mudança, mas não sei se podem sentir medo de mim. Há muito aprendizado nessa pandemia.”


Eu disse que na minha percepção, quando sinto raiva, por baixo da camada da ravia tem um sentimento de medo. Noto que quando algo foge de meu controle, um controle que pra mim estava certo, eu sinto medo do que pode acontecer e fico brava; expresso raiva numa tentativa de resgatar o controle na marra. E lógico que não dá certo…rsrsrs…


A conversa foi tão cheia de riquezas que eu te encorajo a ir lá ouvir mesmo que inglês não seja o seu forte. De repente você vai exercita escutar uma língua diferente e vai fazendo relações com o que leu aqui, vai sacando onde falamos sobre imigração, onde ele fala “I feel sad”. Fica a dica:-)


Stephen disse notar uma riqueza muito grande de aprendizado no contato com as imperfeiçoes.


“Há uma crença que não é nada saudável de que somos fundamentalmente errados, e isso contribui para uma cultura de pessoas que estão certas e pessoas que estão erradas, culpa, autoritarismo, punição e depressão, a busca por reparar uma identidade quebrada. Espiritualidade é encontrar uma postura interna para atravessar momentos difíceis e navegar na vida aprendendo com as dificuldades sem uma idéia de que eu posso ser fundamentamente errado e há um tipo de poder fora de mim que está fundamentalmente correto.”


Essa fala do Stephen ressoou muito em mim, porque é muito comum eu receber pessoas no consultório que querem saber se “são normais” e essa fala, essa angustia, dispara reflexões importantes sobre o que a pessoa considera “normal”, e muitas vezes tem a ver com busca por aceitação e pertencimento. Eu logo digo que mais me interessa um processo de busca por autenticidade e inteireza. Existe um alívio que as pessoas experimentam quando falamos para elas que elas são “normais” em suas imperfeições.

No processo terapêutico é comum que a pessoa vá se dando conta de que essa expectativa de “ser normal” está muito mais relacionada com um desejo de ser ela mesma, do que com algum conceito de normalidade.


E assim seguimos no caminho de sermos eternos aprendizes…

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